Rodrigo Maceira Rodrigo Maceira

Ambient

Talvez uma das contribuições mais interessantes de McLuhan para a discussão sobre o lugar dos meios na cultura seja a ideia de “environment” ou ambiente mesmo. Essa noção de que o ser humano está imerso num ecossistema de mídias que acaba participando de tudo o que ele sente e faz. O pensamento, a sensibilidade (em todos os “sentidos” dos órgãos), a sensualidade, a própria percepção de si: tudo mediado e, de alguma forma, dado, condicionado, pelo emaranhado de meios que dão nossas coordenadas no mundo. A imagem do peixe no oceano, do peixe que não sabe que está no mar, porque tudo é mar, traduz, segundo o guru dos 1960s, esse nosso mergulho - desde o dia 0 - na midioesfera que reúne instrumentos, aparelhos, símbolos, formas, cheiros, recursos, texturas, objetos, e forja nossa aproximação com os outros, as “coisas”, os nomes das coisas, o que é mundo e o que, se for, é fora dele.

A ideia de um ambiente que encharca a gente de mediações invadiu as artes visuais nos anos 70, especialmente por meio da performance, mas também no exercício do “cinema expandido” e de tudo que, depois do texto seminal da Krauss (1979), passaria a adotar o adjetivo. Como ser expandido e ser ambiente, perder os limites em direção ao “environment” que, no fundo, já está pra dentro dos contornos do que a gente quer imaginar ser. Expansão como ação e reação em fluxo, guarda baixa, atuação e redenção diante do que está aí, o tempo todo modelando e repropondo as vias que nos levam da gente pro mundo - e vice-versa.

Cartaz para a “edição” do Musicircus que aconteceu em 1967, na Universidade de Illinois. Os “musicircus” eram performances ambientais propostas por John Cage.

Interessante é pensar que, em 1978, quando publicou o Music for airports, Eno usou e cunhou pela primeira vez a expressão “ambient music”. A música que, segundo ele, deveria ser ouvida enquanto fazemos qualquer outra coisa. Que se desejaria coadjuvante, apanhado de paisagens que situam sensações, saudades, vontades e lembranças embaladas por um som que não deveria roubar qualquer protagonismo. Foi, sem dúvida, uma ruptura com a tradição da música aristocrática do Ocidente. Com a ideia de “obra de arte” mesmo. Que me faz pensar nos ótimos textos da Bishop, em outro contexto, sobre a necessidade de, hoje, aceitarmos novos regimes de atenção diante do consumo da arte e da performance contemporâneas mediadas pelo celular, indissociável dos intervalos mais curtos do tempo na cultura digital.

Eu mesmo sempre “entrei” nos textos de ficção que escrevo ouvindo alguma música para o ambiente. Não é magia, não é encarnação: é mídia, eu-mídia, mídia-eu. A música desenhando o espaço no tempo em que alguma coisa que eu chamo de eu escreve e acontece “em primeiro plano”.

Comecei a investigar e descobrir a “ambient music” ainda adolescente, depois de herdar o vinil de Blade Runner do marido de uma prima mais nova da minha mãe. Algumas peças da trilha realmente sugeriam a paisagem do filme, não sei se trazendo cenários e personagens até a gente, ou se deslocando e dispersando a “escuta”. Quando chegava o fim do ano, listava os principais álbuns de ambient que tinha ouvido e consultava as listas de blogs e páginas especializadas. E ia descobrindo que muita música diferente era ambient: o loop de um piano minimalista levemente reverbeado, alguma música com traços de um instrumento mântrico oriental, um riff de synth borrado e sem um tema certo, um drone crescente, melódico e ensurdecedor - até mesmo a batida eletrônica difusa e prolongada criava as condições pra prestar mais atenção àquilo que se fazia fora da música.

Em 2025, ouvi muito ambient. Não necessariamente ambient de 2025 - será que a paisagem que a ambient music sugere é sempre contemporânea dela mesma?

Gostei muito do Camera uno, origem para a ideia do post. Guardo aqui para não esquecer as figuras de 2025 pras quais várias das faixas do disco foram fundo.

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Rodrigo Maceira Rodrigo Maceira

I can’t help myself ie

Lembro quando a sala colocou o Francisco pra fora, porque ele tava começando a ter bigode. Espécie de coro, “bigotón bigotón bigotón”, e o moleque, sozinho, forçado a ser estrangeiro em si mesmo, sem poder confiar em quem, pra quem, olhar. Na hora, senti que olhar era pedir - pedir que enxergassem na gente o que a gente precisa que seja visto.

“Bigotón bigotón bigotón.”

“Beautiful… it captures how I feel”.

Lembro quando a sala colocou o Francisco pra fora, porque ele tava começando a ter bigode. Espécie de coro, “bigotón bigotón bigotón”, e o moleque, sozinho, forçado a ser estrangeiro em si mesmo, sem poder confiar em quem, pra quem, olhar. Na hora, senti que olhar era pedir - pedir que enxergassem na gente o que a gente precisa que seja visto.

“Bigotón bigotón bigotón.”

Desviei o olhar quando o Francisco olhou pra mim.

Aquele vídeo fabuloso da Tracey Emin. A garota que resolveu começar a dançar no mundo organizado pros homens.

“Slag slag slag.”

Mais tarde, como “artista” e “famosa”, Emin liga a câmera e dança prum salão vazio - vocês vão ver. Vão ver. E viram. Ou ela achou que veriam. Que, depois de anos, aqueles homens - “slag slag slag” - veriam o que ela precisava que tivesse sido visto, menina, na competição de dança do programa de televisão.

“I can’t help myself ie” surgiu no momento em que estávamos instalando o espelho no banheiro da Grande Avenida. Mesmo com muita cola, o vidro insistia em escorregar.

“Vocês seguram pra mim?”

O vidraceiro armou a armadilha que disparou a ideia da excursão que fui gravar recentemente em São Paulo.

Ficamos o Chris e eu, um do lado do outro, empurrando o espelho contra a parede. Conversando pelo espelho também. Rimos. Estávamos nos empurrando, fazendo força para não deixar nenhum de nós cair.

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Rodrigo Maceira Rodrigo Maceira

Um ano bom

Um ano bom. Anarqueologias da vida.

A ideia da Avenida é antiga. Ela surgiu e variou de forma. Nos últimos dois anos, mesmo que ainda em processo, ganhou uma cara mais dela, encarnou projetos que ajudam quem vê de fora a entender melhor o que está conhecendo.

Em 2024, nós mudamos do térreo do Conjunto Zarvos para o décimo andar do mesmo edifício. De onde a gente tem uma vista fabulosa de uma parte pequenininha - e densa - da história de São Paulo. Quando cavamos o miolo da Avenida São Luis, encontramos o ponto inaugural de linhas que parecem fugir para a cidade inteira. Em 2025, tivemos a chance de terminar de arrumar o espaço e receber amigos, conhecidos, desconhecidos, em visitas pontuais ou nos nossos cursos.

Pensamos numa trilogia - conseguimos cobrir duas das ideias. Sempre com cursos que roubam nomes de vídeos da internet, partimos de “need ideas plz” para pensar as heranças da arte conceitual, das instruções e da vídeo-performance nos vídeos que assistimos online. A admissão de que essas relações são possíveis não precisa ser necessariamente adesista para descobrir diversos momentos bonitos da net art dos anos 2000 e mesmo de alguns virais que curtimos no TikTok ou inclusive em alguns dos exemplos mais “icônicos” do momento do AI slop de 2025. Falamos da famosa carta que Duchamp escreveu à irmã, com orientações sobre como (re)produzir um presente, olhamos muito para diversos dos event scores de Grapefruit, da Yoko; vimos vídeos virais e tomamos legendas, challenges e prompts como instruções da arte barata (pra quem precisa ser cara?) do dia a dia.

Continuamos nessa mesma trilha com “the loneliest you ever felt”. Costuramos a ideia de melancolia - do canônico “Problema XXX” - com a promessa de sermos todos artistas, alimentada pelo desenvolvimento técnico-midiático ao longo dos séculos XX e XXI. Com as plataformas de conteúdo, ganhamos a oportunidade de mostrar o que criamos numa escala que muitos “artistas” jamais conheceram ou projetaram. Inspeccionamos tentativas institucionais de sistematizar a arte amadora oriunda da cultura do conteúdo online e chegamos a acreditar que criar por amor talvez seja mais interessante (com certeza, mais apaixonante) que ser artista profissional. A internet dos milhões de influenciadores, o palco em que o número de tentativas é proporcional à frequência do fracasso. Em algum lugar do mundo, em muitos lugares, mais um moleque está trancado no quarto, agora, olhando fixamente para a tela do telefone, se olhando, arriscando um vídeo e se desafiando diante do medo que tem do julgamento dos outros.

Poetry made by all.

Tivemos ainda a colaboração tremenda do Gustavo no curso “Escrita: entre a vida e a morte”. Experimentamos maneiras de viver e morrer com as diferentes superfícies do texto. Visitamos o cemitério da Consolação e tomamos dos mortos modelos para personagens que, inventando, fizemos viver.

Ganhamos ainda um cartaz novo criado pelo GVO. Ele deu também um leve refresh na identidade da Avenida. Sempre tudo muito lindo.

Por último: registramos "I can’t help myself ie”, excursão que fiz por São Paulo, propondo cada um de nós como esteio de alguém, esperando que, por isso, sejamos mais generosos com o que ajudamos (ou atrapalhamos) que os outros vejam em si mesmos.

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