I can’t help myself ie

“Beautiful… it captures how I feel”.

Lembro quando a sala colocou o Francisco pra fora, porque ele tava começando a ter bigode. Espécie de coro, “bigotón bigotón bigotón”, e o moleque, sozinho, forçado a ser estrangeiro em si mesmo, sem poder confiar em quem, pra quem, olhar. Na hora, senti que olhar era pedir - pedir que enxergassem na gente o que a gente precisa que seja visto.

“Bigotón bigotón bigotón.”

Desviei o olhar quando o Francisco olhou pra mim.

Aquele vídeo fabuloso da Tracey Emin. A garota que resolveu começar a dançar no mundo organizado pros homens.

“Slag slag slag.”

Mais tarde, como “artista” e “famosa”, Emin liga a câmera e dança prum salão vazio - vocês vão ver. Vão ver. E viram. Ou ela achou que veriam. Que, depois de anos, aqueles homens - “slag slag slag” - veriam o que ela precisava que tivesse sido visto, menina, na competição de dança do programa de televisão.

“I can’t help myself ie” surgiu no momento em que estávamos instalando o espelho no banheiro da Grande Avenida. Mesmo com muita cola, o vidro insistia em escorregar.

“Vocês seguram pra mim?”

O vidraceiro armou a armadilha que disparou a ideia da excursão que fui gravar recentemente em São Paulo.

Ficamos o Chris e eu, um do lado do outro, empurrando o espelho contra a parede. Conversando pelo espelho também. Rimos. Estávamos nos empurrando, fazendo força para não deixar nenhum de nós cair.

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